Sábado, 20 de novembro de 2010, 12h25
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Educação

Alunos de escola municipal rural aprendem a superar o preconceito e respeitar as diferenças


No dia em que se promovem diversas atividades em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra (20-11), os alunos do professor de História, Edmilson Marques de Moraes, 35 anos, da escola municipal rural Hilda Caetano, na Vila Sucuri, a 17 kmde Cuiabá, mostram que, muito mais do que ações isoladas, é possível superar o preconceito e conviver com as diferenças.

O trabalho com os estudantes do 6º ao 9º do Ensino Fundamental daquela unidade de ensino, denominado ‘Trabalhando as Diferenças, Superando o Preconceito’ começou em 2007 e, de lá pra cá, segundo o docente, já se observam mudanças de atitudes e amadurecimento no comportamento dos alunos. “Trabalho diversos textos que abordam as relações raciais e verifico as mudanças na maneira de enxergar a realidade nos alunos, com o passar do tempo, por meio de produção de textos. Já trabalhei, por exemplo, o tema ‘Eu já sofri preconceito e já fui preconceituoso’ e comparo com as produções do mesmo aluno nos anos anteriores”.

Nesse percurso, o professor aponta a trajetória do negro na história e todo o tempo que se levou para inculcar na sociedade a visão destorcida que se tem dos afrodescendentes. “Para se construir essa imagem negativa, foram necessários 300 anos. Essa desconstrução é árdua, mas possível”, pondera.

Mas o trabalho do historiador não se esgota na sala de aula. Desde o ano passado, ele também realiza pesquisas com os pais dos alunos. Uma delas é a pesquisa de cor, por meio de um questionário pautado nos critérios do IBGE, além de questões relacionadas ao racismo, preconceito e discriminação.

De acordo com o professor, os resultados mostram que um número reduzido de entrevistados se diz negro ou branco, mas uma maioria significativa se assume como pardo. “A avaliação que faço desses números é que, os que se dizem pardos, não reconhecem a identidade. Essa não aceitação é fruto da imagem que foi construída do negro”, analisa.

Quando perguntados sobre a questão da discriminação, 100% dos que responderam ao questionário afirmaram que “nunca foram preconceituosos e que passam isso aos filhos”. “É muito difícil admitir que se tem preconceito, pois não é politicamente correto”, diz Edmilson.

Aluna do professor Edmilson há 4 anos, Yone Bondespacho da Silva, 14 anos, está no 9º ano do Ensino Fundamental e diz que aprendeu muito no projeto. “Durante esse tempo, aprendi que todo mundo, não importa cor e raça, tem suas próprias características e que isso deve ser respeitado. Também compreendo hoje que o preconceito existente na sociedade não é apenas em relação à cor ou raça, mas que vai além disso, como no caso dos homossexuais, que são muito discriminados”.

Quando perguntado se já teve alguma atitude preconceituosa, Carlos Henrique de Oliveira, 12 anos, estudante do 7º ano, responde prontamente que sim. “Sou filho de pais separados. Um dia fui visitar meu pai e, quando me dirigia à casa dele, um garoto negro passou por mim e eu fiquei ‘zoando’ com ele por causa da sua cor. Mais tarde, quando já estava na casa do meu pai, o menino entrou pela porta e eu soube que ele era meu irmão”.

Carlos Henrique afirma que os textos lidos e produzidos em aula, as palestras e os filmes que assistiu o levaram a repensar sua postura. “Hoje aprendi que as pessoas são diferentes e que isso não as torna melhores ou piores. São pessoas que devem ser respeitadas”.


Apelidos como ‘carvão’ e ‘foguinho’ empregados aos alunos negros eram comuns na escola, afirma a também estudante do 7º ano Lauriane Cristina de Arruda, 12 anos. “Isso já mudou bastante, mas quando vejo alguém tendo uma atitude racista, me aproximo e falo: ‘por que você ta colocando apelido nele, se você tem o mesmo sangue que ele?", conta.


A estudante, que tem um biótipo indígena, diz que já se sentiu muito incomodada ao ser chamada de ‘índia’. “Hoje eu não me importo mais com isso porque aprendi que essa é uma característica minha e que todas as pessoas têm as suas”.


Na avaliação da diretora da unidade de ensino, Gilda Silva de Oliveira, o trabalho desenvolvido com os alunos do projeto tem repercutido no tratamento dispensado aos estudantes. “Hoje percebo que eles são mais afetuosos, não escolhem mais com quem vão sentar próximos, não exprimem apelidos pejorativos. Ou seja, eles têm uma postura inclusiva. Quando saírem daqui e forem pra outras escolas, já saberão respeitar as diferenças”.


Para a diretora, o projeto teria uma abrangência maior se todos os professores da escola se engajassem na proposta. “Temos que valorizar uma ação com tanta qualidade e repercussão educativa, social e humana, pois o professor Edmilson tem muita competência e atua com propriedade no trabalho que desenvolve. E o mais importante: ele faz isso com dedicação e amor. Fico muito feliz com o êxito do trabalho e, conseqüentemente com os cidadãos que estamos formando aqui”.


“Minha maior preocupação é que os alunos amadureçam, mudem a visão em relação ao preconceito, ao racismo, e entendam que diversidade está presente na escola e em toda a sociedade e que ela deve ser respeitada”, revela o professor Edmilson Marques.

 

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